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Índia _ Viagem Louca

Monday, February 2nd, 2009

Mumbai, 13 de Janeiro 2009
Sala de espera na estação de Chatrapati Shiragi : 6h00

Quando acho que não poderia viver mais louca situação, eis que sou surpreendido. E o dia de hoje foi cheio de surpresas.

Deixei Anjuna, começava-me a habituar a tão fácil vida, já só estava a pagar 100 rupias pela casa (1,5 Eur), havia criado amizades no restaurante da frente onde passava os dias no chill out da varanda para o mar a beber sumos de fruta e a comer peixes grelhados e saladas saudáveis, à noite eram as tertúlias à luz das velas frente ao mar. No próximo ano, quero voltar, espero que continuem todos bem. A época não lhes foi favorável, têm 3 meses de trabalho onde juntam economias para o ano inteiro, e os ataques bombistas em Mumbai afectou imenso o turismo pelo que estão todos preocupados em como fazer para subsistirem.

Esperei em Anjuna até duas horas antes de apanhar o comboio e depois lá fui para a paragem do bus.

- Viagem Louca Indiana parte I:
Param dois autocarros ao mesmo tempo na paragem vindo de sítios diferentes mas indo para o mesmo sítio (Mapusa). Ia para entrar no primeiro que estava cheio quando surge o outro, que estava praticamente vazio. Desse outro, alguém gritava MAPUSA MAPUSA MAPUSA, o autocarro não terá estado mais que 10 segundos parado e eu lá entrei já com ele em andamento. Tentem visualizar o que de seguida vos conto: dois homens dentro do autocarro a gritar MAPUSA MAPUSA para a rua enquanto que o motorista, a alta velocidade, apitava como se o fim do mundo estivesse próximo e o autocarro dele estivesse a fugir. Eu já não conseguia parar de me rir, creio que terá havido um indiano ou outro que me percebeu. O autocarro terá estado mais tempo em contra-mão que na sua via, é incrível a forma como eles se esquivam em momentos tão precisos e a milímetros de terem um acidente. Continuo sem acreditar que ainda não vi um único acidente, mas talvez seja como o motorista do taxi de Arambol me falou quando lhe perguntei porque não vejo acidentes – “They exist, if you don’t seem them, it’s because you bring good luck with you”.
Após aquela corrida a alta-velocidade onde o autocarro parecia querer bater algum recorde de tempo e ao mesmo tempo de ocupantes recolhidos da rua à força, o autocarro faz uma paragem. Uma paragem de meia hora…! Fiquei sem perceber o porquê de toda aquela velocidade mas… ok, estou na Índia.
Com essa paragem arrisquei o comboi, e isso não podia de forma alguma acontecer pelo que fui de taxi assim que saí em Mapusa. Existem os taxi-carro, os rickshaw que são umas motas de 3 rodas e existem as motas. Surge-me um homem de mota que me pergunta para onde vou, digo-lhe que quero ir para Thivim, e sem pensar, aceito e subo para a mota. Não me ocorreu o medo que eu tenho a motas nem tão pouco o facto de estar com duas mochilas.

- Viagem Louca Indiana parte II:
Hora de ponta, trânsito louco, autocarros motas carros pessoas, tudo misturado, o taxista esguio tenta o mais rápido possível chegar ao seu destino, quase sempre em contra-mão e a desviar-se sempre quando eu achava que iamos bater e já não conseguíamos margem para a manobra. O homenzinho não terá quase nunca respirado de tanto que o apertei para me segurar. Chegamos a tempo de apanhar o comboio!

- Viagem Louca Indiana parte III:
O início desta minha viagem de comboio foi a continuação de uma loucura nunca antes vivida. Comprei o bilhete com 2 dias de antecedência e no entanto estava em lista de espera para conseguir um lugar, era o 167 passageiro em espera sem sítio no comboio onde poder estar. Entrei no comboio e sentei-me num lugar e esperei que tudo fica-se mais calmo para de seguida ir procurar o revisor e lhe expor a minha situação. Em frente ao lugar onde me sentei, estava um simpático casal que me ajudou imenso nesta aventura. A senhora era Goesa e sabia ainda algumas palavras em Português que havia aprendido na escola, o seu avô falava português. O marido deu-me a dica: “Vais ter com o revisor e vais suborna-lo, vais-lhe dizer que precisas muito de um lugar e dás-lhe 30 rupias”. Eu, que já havia visto de tudo ou quase, já nem estranhei e lá fui eu ter com o senhor. Até eu me conseguir entender com o homem, percorri a parte do norte do comboio desde o senhor que me dava as dicas, ao revisor, umas 5 vezes. Infelizmente não resultou, pois estava mesmo cheio e ele não podia fazer nada. O senhora das dicas diz-me para ir então à classe seguinte do comboio procurar o revisor dessa área. E eu fui. Entre uma classe e outra existe uma cozinha, e vocês não imaginam a confusão e caos que é atravessar essa carruagem. Dezenas de homens correm de um lado para o outro desenfreadamente, eu parei e comecei a rir ao observar aquela loucura, não consegui deixar de o fazer. Gritavam para todo o lado, tropeçavam, da cozinha vinha uma intensa mistura de odores e vapores quentes, o corredor da carruagem estava inundado de caixas e de refeições, mais tarde quando acalmou voltei para filmar. Entre o revisor da classe seguinte e o senhora das dicas, haveriam umas 5 carruagens. Até me conseguir entender com o revisor, atravessei e voltei ao mesmo umas 5 vezes, o atravessar a carruagem-cozinha era sem dúvida a parte mais complicada. Por vezes aproveitava o comboio parar para saír e correr sem ter que atravessar as carruagens. Haviam já indianos que se riam de tantas vezes que me viam a passar no mesmo sítio e eu igualmente já não podia deixar de me rir com a situação. Finalmente lá me entendi com o revisor e lhe paguei uns 8 eur pelo bilhete. 12,5 Eur no total que me ficou o bilhete de Goa para Mumbai, uma viagem de 12 horas. Muito dinheiro para as viagens low cost que ando a fazer! Mas não havia solução, só havia lugar nas classes de luxo. Finalmente encontrei o meu lugar e sentei-me, estava em um compartimento com uma família. Dormi as 12 horas… estava cansado de tanta aventura.


Amostra de louca viagem de Goa a Mumbai from Hugo Lima on Vimeo.

Índia _ Arambol e um por do sol de encantar

Thursday, January 29th, 2009

Arambol (Goa), 10 de Janeiro 2009
Praia, ao luar da lua cheia : 21h00

Anjuna é extremamente perigosa para quem planeia uma viagem pela Índia. Aliás, toda a Goa o é.
Nestes últimos dias, foram vários os bagpackers que conheci e que aqui ganharam raízes, ficaram uma semana, duas, três… tem quem aqui esteja faz meses. É muito fácil habituar-se a esta vida e muito difícil deixá-la. Praia paradisíaca, boa comida e saudável, muita fruta e sumos naturais, festas e finais de tarde de encantar.
Era suposto já cá não estar, havia comprado bilhete de comboio para partir no Sábado, fui alterá-lo para partir na Segunda ao final de tarde. Vai custar muito deixar este belo lugar, mas neste lugar o tempo não pára e o meu é pouco e já só tenho metade.
Tenho conhecido vários viajantes, Anjuna é um ponto de paragem para a maioria deles, as perguntas que por aqui mais rolam são: “Estás na Índia faz quanto tempo?”; “Quanto tempo vais ficar?”, “De onde és?”. Acreditem ou não, de todos os que conheci, sou eu quem menos tempo de viagem terá. 1 mês é realmente muito pouco para algo deste dimensão, uns estão cá desde Agosto, Abril… estão pela segunda, terceira vez…

Adoptei duas meninas, a Susan (que na verdade chama-se algo como Sharow mas gosta de ter nome estrangeiro), e a Kirina, sua irmã [ver fotografias]. A Susan não sabe a idade que tem, diz que não comemora o aniversário porque é pobre, acha que terá entre 14 e 15 anos e a irmã 8. O negócio da família são as barracas de artesanato e roupa que existem na praia. Pelo que percebi, existe alguém que meteu toda a família na praia a vender os produtos que importa. Ninguém da família ganha dinheiro, esse alguém apenas os alimenta, mas eles têm que vender para justificar a comida que recebem. Susan e a irmã têm uma pequena lojinha de joalharia, uma pequena caixa que transportam e de turista a turista vão tentando convencê-los ou a comprar ou a leva-los à barraquinha de roupa.
Apaixonei-me pela Kirina, tem apenas 8 anos e é um prodígio. Aquela miúda em Portugal teria imenso sucesso na vida. A necessidade de vender para sobreviver e o facto de ter já crescido por entre turistas, levou-a a aprender muito bem o inglês e a saber como vender. É muito difícil dizer-lhe não. E é muito provavelmente a melhor vendedora da praia [ver video]. É extremamente inteligente e vai muito além do inglês básico e essencial para a sua sobrevivência, com ela conversei sobre imensas coisas. É difícil de acreditar que tem apenas 8 anos quando penso nas crianças que conheço da mesma idade. Vi-a apenas uma vez a agir, sorrir e brincar como uma criança de 8 anos. Provavelmente terá o mesmo destino que os mais velhos membros da sua família, gostava que entre tanta gente, encontra-se uma fada-madrinha que a tira-se daquele lugar e lhe desse um mais justo destino digno das suas capacidades.

Pelos lados de Anjuna, os dias são sempre iguais, com uma ou outra nova história que vai surgindo, mas basicamente acorda-se, vai-se para a praia, venera-se o por-do-sol e reúne-se após o jantar em um dos espaços de chill out para se conversar e tomar um chai. Tenho alguns casos engraçados que aconteceram, tive por exemplo um combate com uma vaca que me tentou roubar o almoço [ver video]. Não foi fácil, após o que se vê no vídeo, começou a marrar na espreguiçadeira e teve de vir alguém ajudar-me a afastá-la. Episódios semelhantes acontecem durante o dia com outros turistas, toda a praia ri quando tal acontece.
Também conheci um português, o único. Ouvi-o falar com alguém em espanhol acerca de uma convenção de malabaristas que iria acontecer no dia em que a lua iria estar mais cheia, e questionei-o em espanhol acerca dessa mesma convenção. Pouco depois percebemos que ambos eramos Portugueses.
Chama-se Tiago (ou Tiaguim), deixou tudo para trás e veio para a Índia. Antes trabalhava como gráfico de uma revista de surf e tem imensos contactos na área, viu o meu trabalho e motivou-me imenso a procurar apoios para futuras viagens, falou-me que me ajudaria com contactos e que acreditava que eu tinha trabalho para os conseguir. Deixou Portugal em Agosto e desde então que por aqui anda, de momento está a estudar yoga cá em Goa, faz algumas semanas. Através dele conheci a sua companheira, Natália da Bulgária e conheci também a Anouh, uma filha de pais Indianos que nasceu em Londres e que foi viver para Espanha.
O que temos todos em comum? Estivemos os 4 no Boom Festival em Portugal. Neste outro lado do Mundo, fui encontrar gente que esteve no mesmo lugar que eu à uns meses atrás – e ainda estaria por cá um outro português que é da organização desse festival.
Estaria a decorrer uma convenção de malabarismo em Arambol [ver fotografias], uma praia a alguns kms dali, de onde vos escrevo neste momento. A noite seria especial, noite de lua cheia na praia. Para lá fomos passar o dia, a praia era enorme, com imenso espaço e muitos poucos vendedores. Para se chegar à praia passava-se por milhentas lojas onde até placas escritas em russo existiam. Percebi pouco depois que abundavam por ali turistas russos. Fugindo a este foco turístico, chegamos a uma zona da praia quase deserta e sem indianos, a convenção de malabarismo estaria a decorrer em um espaço aberto, do outro lado de um pequeno rio que se atravessaria através de uma ponte de madeira. Lá dentro, só se encontravam estrangeiros, a ensinar, a aprender, a vender[ver fotografias]. Para quem já esteve no Boom Festival, aquilo era uma pequena amostra.
O final de tarde foi um momento mágico. De um lado, por detrás do mar, escondia-se o Sol, enquanto que do lado oposto, nascia imponentemente e vigorosa a Lua iluminando toda a praia e recortando coqueiros e palmeiras no cenário[ver fotografias] [ver video].
Como que em jeito de despedida do Sol e saudação à Lua, os presentes ora tocavam ora escutavam ora faziam acrobacias ora puro e simplesmente respiravam e viviam o momento.
Voltamos, sorridentes, para casa.

Clicar na fotografia abaixo para ver as restantes:

Homem e Vaca Sagrada - O frente a frente

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Vídeos:


Anjuna Beach from Hugo Lima on Vimeo.


Anjuna Beach from Hugo Lima on Vimeo.


Anjuna Beach from Hugo Lima on Vimeo.

India _ Cada minuto conta

Tuesday, January 20th, 2009

Amigos, os meus dias têm sido intensamente preenchidos e de uma riqueza incrívelmente bela, tenho escrito e fotografado imenso mas não tenho tempo para aqui vos mostrar. Sinto-me fazer parte dos contos de fadas e das 1001 noites do ali baba. Neste momento estou perto do Paquistão e encontro-me no deserto a 65km de qualquer tipo de poluição visível ou audível. O céu é limpo e brilhante de noite, não se houve uma única buzina ou motor, apenas um ou outro camelo menos feliz. Tenho muito para vos contar mas por agora apenas vos deixo algumas imagens da minha pessoa e aleatorias destes últimos dias até Domingo.
Como por aqui se diz, dhanyevad por me terem acompanhado e partilhado estes momentos, assim que me for possível, colocarei aqui tudo o que tenho escrito e fotografado, só não vos garanto que tenham tempo para tanto ler…
Namaste!

CLICAR PARA VER CORRECTAMENTE:

Índia _ Anjuna Beach, um pequeno paraíso na Terra

Friday, January 9th, 2009

Anjuna Beach (Goa), 7 Janeiro 2009
Praia, por-do-sol : 18h30

Escrevo-vos da praia de Anjuna, muito conhecida pelos hippies que alberga e as festas. Tem agora mais fama do que realmente é, a ocupação pelos hippies foi por volta de 1970 e agora é mais uma zona turística com algumas festas e um grande mercado.
Vim para Anjuna para relaxar, antes de partir para o norte, para o Rajastão. E digo-vos, que não existe melhor lugar para o fazer. A praia, é um paraíso. Coqueiros atropelam-se para chegar à agua, cabanas desde uma ponta da baía à outra, muitos restaurantes com música trance, chill out, esplanadas, puffs, grandes peixes a serem grelhados, imensos europeus e americanos (5 caras brancas por cada uma indiana). A temperatura é quente, mas agradável, o sol não queima. Neste preciso momento, o sol pos-se, e o momento é vivido intensamente. Olho à minha volta: uma praia paradisíaca, uma brisa de final de tarde bem quente e relaxante, um mar calmo que vai e vem e por vezes me ultrapassa a espreguiçadeira, um pouco mais distante (pois eu mantenho-me distante) pessoas dançam na areia, outros fazem uma espécie de veneração ao lindíssimo por-do-sol, começam a ser acendidas velas pela praia e alguns balões de fogo são lançados no ar. Para quem já viu o filme “A Praia”, é uma visão muito similar [ver video] [ver fotografias]. Mais que pelos hippies, Anjuna é conhecida pelo seu mercado semanal. Gentes de vários pontos da Índia e não só, fazem um enormíssimo mercado com uma enorme variedade de coisas. Tudo se vende. Além de indianos a vender, vi também europeus, nepalenses, japoneses e coreanos, hippies e mulheres tribais de Lamani, viajantes de todo mundo, tibetanos e mercadores de Caxemira, talvez ainda mais asiáticos de outras nacionalidades. Quem vem a Goa, tem que incluír este mercado na sua experiência. Além de sumos naturais, nada comprei, mesmo apesar de ser abordado de minuto em minuto para o fazer. Mas percorri todo o mercado, e vontade não me faltou, mas não me posso esquecer que ainda tenho um longo caminho a percorrer, não posso encher a mochila, e acredito que no Rajastão vá encontrar melhor por melhores preços.
Fiz uma amiga, chama-se Susan [ver fotografias]. Ontem passou o dia inteiro a querer levar-me à sua loja e hoje tentou o mesmo mas logo depois acabou desistindo. Terá ganho algum interesse por mim, quando não tinha clientes vinha-se sentar comigo, fazia-me perguntas e ainda me pediu para lhe pagar uma omolete e um chai. Começou por pedir a mais cara, eu lá fui negociando com ela e consegui que ela aceitasse a mais barata, 60 centimos (a comida não é muito barata em Anjuna).
Susan é de Hampi, de um estado aqui ao lado de Goa, Karnataka. Está com o pai, a irmã e marido da irmã. O pai tem uma loja na praia de roupa e ela tem a sua pequena lojinha de joalharia. Deverá ter uns 14 anos e usa a pinta vermelha na testa, perguntei-lhe se era casada – ela respondeu-me que só usava por ser fashion. Fiz-lhe alguns retratos e amanhã deverei voltar a tê-la como companhia.
Na praia, por entre os turistas, várias vacas ou gnus, os mais raros indianos a tentar ganhar dinheiro ora a dançar, ou pela forma como se vestem, ora a fazer acrobacias com um gnu ou a tocarem flauta. Não conheci nenhum branco pois estou propositadamente um pouco à parte e só, limito-me a viver e a observar, mas ainda houve alguns que me perguntaram de onde vinha, por quanto tempo ficava, não me cativaram as raves e os convites, embora vos diga que 80% das mulheres estrangeiras aqui presentes são lindíssimas… e cativam. Em muitas é bem visível que já cá estão faz muito tempo, vestem-se de forma tribal, estão muito morenas e embora magras, aparentam todas serem muito saudáveis. É dos ares, e da falta de stress, e o mar e praia fazem bem. Praia, uma cabana, peixe grelhado e sumos naturais, o que é preciso mais?

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Praia de Anjuna

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Vídeos do dia:


Primeiros minutos na praia de Anjuna from Hugo Lima on Vimeo.


Anjuna Beach à noite from Hugo Lima on Vimeo.


Anjuna Beach from Hugo Lima on Vimeo.


Bicharada da minha janela from Hugo Lima on Vimeo.

Índia _ A caminho de Goa

Friday, January 9th, 2009

Algures entre Mumbai e Goa, 6 de Janeiro 2009
Comboio Mumbai > Margão : 2h

Estou em viagem para Goa, e neste momento em que vos escrevo estas palavras, tento fotografar um pequeno rato que tem vindo visitar este compartimento. Estou em classe Sleeper. Uma espécie de segunda classe com direito a camas. Em cada compartimento, 6 camas, 3 em cada parede. Caso a cama do meio esteja a ser usada, ninguém poderá ir sentado.
Hoje de manhã, deixei a casa de Wasseem com a mochila de campismo e uma outra mochila. Ponderei ir de taxi para Colaba, mas decidi arriscar o comboio. Na estação, perguntei se estaría em hora de ponta, se a carruagem estaria cheia ou se não haveria problema e mesmo apesar de ter uma mochila grande, poderia ir na segunda classe. Disseram-me que não haveria problema, “go go relax”.
E assim o fiz, paguei os 9 centimos e fui para a plataforma. A quantidade de pessoas que aguardava pelo comboio não era nada confortante, e muito menos o foi quando o comboio chegou e vinham dezenas de pessoas penduradas do lado de fora em cada uma das carruagens! Foi um salve-se quem puder, com a experiências das anteriores viagens, meti-me à frente, empurrei empurrei, furava as pessoas, e mesmo com as mochilas, consegui entrar no comboio e não ter de ir pendurado. Quem estava por perto não deveria achar piada à quantidade de espaço que as minhas mochilas ocupavam enquanto que iam pessoas do lado de fora do comboio. Mesmo assim, alguém num dos bancos me ofereceu o lugar dele, em troca de muita conversa e fotografias com ele [ver video].

Passei várias horas da tarde a comprar o bilhete para Goa, fui interpelado por um suposto agente da estação que me ajudaria a confirmar quais os bilhetes disponíveis. Falou-me que estava tudo esgotado e que só dois dias depois teria bilhete. Levou-me a um escritório fora da estação e disse-me que ali teriam bilhetes de emergência para turistas, embora mais caros, fala-me primeiro em cerca de 4 Eur, depois desce para 3 Eur, disse-lhe que não pagaria mais que 1,5 Eur. Liguei para o Nenden e ele disse-me para eu saír dali, que era uma forma de sacar dinheiro aos turistas. Voltei à estação e encontrei uma bilheteira onde estavam vários estrangeiros [ver fotografias]. Pergunto-lhe pelo resto das pessoas, digo-lhe que tive que aguardar uma cama e quase para não ir pois o comboio supostamente estava cheio, ele responde-me, “This is India”.
O comboio é em ferro, as camas são em ferro, no tecto duas grandes ventoínhas servem para manter o compartimento fresco e ao mesmo tempo, arejar para que não síntamos os pestilentos odores que vêm dos wc e de algumas pessoas [ver video].
Digo ao meu companheiro de viagem que acabei de ver um rato, ele responde-me: “Relax, Sit Sit, you will see many more”.

Deixo para trás Mumbai e deixo-vos uma descrição que vi em um livro do que Mumbai é:
“Measure out: one parte Hollywood; six parts traffic; a bunch of rich power-moguls; stir in half a dozen colonial relics (use big ones); pour in six heaped cups of poverty; add a smattering of swish bars and restaurants (don’t skimp on quality here for best results); equal parts of mayhem and order; as many ancient bazaars as you have lying around; a handful of Hinduism; a dash of Islam; fold in your mixture with equal parts India; throw it all in a blender on high (adding generouss helpings of pollution to taste) and presto: Mumbai”

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Estação de Chhatrapatri Shiraji

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Vídeos do dia:


De casa até à estação de Bandra from Hugo Lima on Vimeo.


Comboio sandwich de Bandra até Mumbai from Hugo Lima on Vimeo.


Comboio de Mumbai a Goa from Hugo Lima on Vimeo.


Goa – De thivim a Mapusa, de Mapusa a Anjuna from Hugo Lima on Vimeo.

Índia _ Um Domingo em Mumbai

Friday, January 9th, 2009

Mumbai, 5 Janeiro 2009
Casa do Wasseem : 6h

Ontem, foi Domingo, e o trânsito em Mumbai parou, excepto os comboios.
Fui apanhar o comboio na estação de Bandra, e vi o que não havia visto de noite. De um lado da estação, casas por entre esgotos e lixo, crianças e adultos caminham por entre o lixo, a enorme estação decadente e visível em toda a sua extensão. [ver fotografias]
Apanhar um comboio, pelo menos em Mumbai, é uma aventura.
Queria escrever e pensei: “escrevo no comboio”. Mal sabia o que me esperava. Quando o meu comboio chegou, vinha com várias pessoas do lado de fora, penduradas em cada uma das entradas. E quando essas pessoas não saem e estão umas 500 para entrar? É empurrar empurrar empurrar.

Ao chegar a Colaba liguei ao Nenden, falou-me para nos encontrar-mos na Universidade de Mumbai. Quando cheguei, dezenas de pessoas jogavam Criquet [ver fotografias] [ver video]. O criquet na índia está a tornar-se em um dos seus mais importantes desportos e prestes a ultrapassar os ingleses! Existiam várias áreas no campo da universidade, jogadores profissionais, semi profissionais e amadores. O Nenden tem 31 anos embora não o aparente, nenhum hindu o aparenta, talvez seja a filosofia deles, não se preocupam com nada. Falou-me do criquet e dos seus sonhos. Adora conhecer estrangeiros e conhecer histórias. Coleccionou tantas histórias que sabe os melhores negócios e como vencer na vida. Tem o caminho dele idealizado, quer ir para a europa e tem-se preparado para isso. Aos 15 anos deixou Udaipur, a sua terra natal, e viajou por toda a Índia, deu-me várias dicas de onde ir e onde ficar e os preços que deverei regatear. Levou-me a restaurantes baratos dos locais e apresentou-me aos amigos, falou-me de deuses e religiões. Fez-me uma lista de locais que deveria visitar durante a tarde e assim o fiz. Apanhei um bus para um dos pontos mais altos da cidade e fui ao Hanguing Garden, dos mais bonitos e cuidados jardins da cidade [ver fotografias]. Famíias ricas passeavam, uma deles veio-me conhecer e fazer perguntas sobre mim, desci pelas ruas da cidade até à praia. Chowpatti Beach era o seu nome [ver fotografias]. Pelo lado que entrei, a praia era degradante, um esgoto ia dar às suas águas, e nesse lugar, crianças tomavam banho. Casas de plástico acumulavam-se, pombas águias falcões corvos, todos se misturavam, fui percorrendo a praia e fui-me tornando o centro das atenções. Fiz uma caminhada muito calma, a passo lento, demorava, observava, trocava sorrisos, sentava-me com quem mostrava interesse, tinha conversas, faziam-me muitas perguntas. A praia estava cheia, na parte onde me encontrava já não se via pobreza, muitas famílias sentavam e conviviam, grupos de curiosos vêm ter comigo, fazem-me perguntas, pedem-me o nr. de telefone, não acertam nunca no meu nome. Fez-me lembrar um pouco os extintos passeios de Domingo em família, em que irmãos primos e tias se reuniam e conviviam.
Na última metade da praia, as famílias eram notavelmente mais ricas e a praia mais limpa, não havia misturas com gente pobre, não percebi onde estava o limite nem o que o definia, mas aparentemente era respeitado. Caminhei pela marginal da praia mais uns 5 Km, estava cheia de famílias a contemplar o por-do-sol enquanto que as ruas estavam estranhamente calmas, é Domingo…
Ligo ao Nenden e vou ter com ele, ele leva-me a um restaurante que serve um manjar dos deuses, vários tipos de peixe acompanhado por duas Kingerfish de 1 litro (Kingerfish é das melhores e a mais conhecida cerveja na Índia). O jantar custou-me uns 8 eur, dava para jantar umas 5 vezes, digo a mim mesmo que não voltará a acontecer e sigo apanhar o comboio para casa. 9 centimos viagem de comboio de 1 hora, agora sim, viver a Índia.
Algo curioso acontece nessa viagem, em uma das paragens, entra um travesti que começa a bater palmas a cada um dos presentes e em resposta recebe um sinal por cada uma das pessoas. Eu ignorei-o(a) e ele(a) proferiu algo, não ficou lá muito contente. Mais tarde fui pesquisar no meu livro e percebi que na religião hindu, os travesti assim como os eunucos, pertencem a uma casta chamada de Hijras, Alguns são gays, alguns hemafroditas, e alguns são uns desafortunados que foram raptados e castrados. Consideram-se uns previligiados e são aceites na sociedade como um terceiro sexo. Li também algures que lhes dão dinheiro pois dar dinheiro a Hijras traz boa sorte aos filhos.
Desta vez não fui a pé da estação de Bandra, precisava chegar cedo pois supostamente o Wassem estaria em casa. Mas não estava. Estive 4 dias em casa do Wasseem, ele não me conhece, nunca nos vimos, apenas falamos por email, deu-me a chave de casa e nunca mais me disse nada. Obrigado Wasseem. Não voltarei certamente a ter condições destas na minha viagem. Deixei-lhe uma garrafa de azeite extra virgem e uma outra de vinho do Porto, como sinal de agradecimento.

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Crianças pobres residentes na praia de Chowpatti Beach

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Vídeos do dia:


Criquet na Mumbai Univercity from Hugo Lima on Vimeo.


Chowpatty Beach – Mumbai from Hugo Lima on Vimeo.

India _ Uma viagem de autocarro

Friday, January 9th, 2009

Colaba (Mumbai), 3 de Janeiro 2009
Comboio – Colaba -> Bandra : 21h00

Uma curiosidade que ainda não consegui satisfazer acerca dos indianos, é a forma como eles por vezes nos abanam a cabeça. Faço-lhes uma pergunta e eles conseguem fazer algo com a cabeça que eu não consigo reproduzir, pelo menos com a mesma agilidade. Não dá para perceber se é um sim, se é um não, parece um misto de ambos. Sejam homens, crianças ou mulheres.
Hoje não fui de taxi para o centro de Mumbai, experienciei o meu primeiro transporte público de Mumbai [ver video] [ver fotografias].
Imaginem… um autocarro para o centro da cidade cujo limite de lugares não existe e cujo número populacional é de 16 milhões de pessoas. Conseguem? Eu ajudo… quando apanhei o autocarro, encontrava-me ainda em Bandra, ele estava cheio mas algo espaçoso entre quem seguia em pé. Pouco depois começou a deixar de existir espaço e quando eu reparei, do meu lugar ao lado da janela e perto da porta, já existiam pessoas penduradas com o bus em andamento. Nas paragens seguinte, grupos enormes de pessoas aguardavam o bus sendo que isto além de cheio ia já com pessoas penduradas. Era a loucura! Todos a empurrarem-se e outros a aproveitarem as janelas abertas para se pendurarem [ver vídeos e fotografias]. Saí no terminal onde já não havia muita gente.
Era já noite quando me perdi, quer dizer, na verdade eu sabia onde estava, não conseguia era saír de lá! Como sempre, desviei-me do percurso turístico de Mumbai e comecei a entrar por pequenos e decadentes caminhos até que fui entrar em uma pestilenta praça. Corria pelas ruas o que me parecia ser um esgoto, um mercado nocturno decorria fervilhando de actividade, pessoas, motas e bicicletas, todos gritavam, todos tinham algo para vender, vendiam-se maioritariamente alimentos. Por 5 vezes saí dali e por 5 vezes acabei indo ali parar. Parecia um labirinto cuja entrada era a saída. Durante todo esse tempo, um rapaz a tentar vender-me droga acompanhou-me por algum tempo, desisti de lhe falar após a décima vez que lhe disse que não fumava e foi necessário falar-lhe agressivamente para que ele não me perseguisse mais, já havia passado hora e meia! [ver video]

Sou interpelado por um outro rapaz e estou já preparado para lhe dizer que não a qualquer proposta que tivesse para me dar quando me começa a fazer perguntas sobre mim, pouco depois estavamos sentados a trocar impressões e ele ofereceu-se para andar comigo amanhã e levar-me a vários sítios em troca de uma Kingerfish. Marca-mos para as 9h. Chama-se Nenden.

Voltei de comboio para casa que vos descreverei na próxima vez que escrever. Mas desde já vos digo que viajar de transportes públicos na Índia é muito barato, 6 Rupias ( 9 centimos) é quanto custa o bilhete para uma viagem de cerca de 1 hora.

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Alguém que não conseguiu entrar no bus, vai do lado de fora

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Vídeos do dia:


Uma viagem de bus de Bandra a Colaba from Hugo Lima on Vimeo.


Cerimonia Hindu from Hugo Lima on Vimeo.