Índia _ Viagem Louca

February 2nd, 2009

Mumbai, 13 de Janeiro 2009
Sala de espera na estação de Chatrapati Shiragi : 6h00

Quando acho que não poderia viver mais louca situação, eis que sou surpreendido. E o dia de hoje foi cheio de surpresas.

Deixei Anjuna, começava-me a habituar a tão fácil vida, já só estava a pagar 100 rupias pela casa (1,5 Eur), havia criado amizades no restaurante da frente onde passava os dias no chill out da varanda para o mar a beber sumos de fruta e a comer peixes grelhados e saladas saudáveis, à noite eram as tertúlias à luz das velas frente ao mar. No próximo ano, quero voltar, espero que continuem todos bem. A época não lhes foi favorável, têm 3 meses de trabalho onde juntam economias para o ano inteiro, e os ataques bombistas em Mumbai afectou imenso o turismo pelo que estão todos preocupados em como fazer para subsistirem.

Esperei em Anjuna até duas horas antes de apanhar o comboio e depois lá fui para a paragem do bus.

– Viagem Louca Indiana parte I:
Param dois autocarros ao mesmo tempo na paragem vindo de sítios diferentes mas indo para o mesmo sítio (Mapusa). Ia para entrar no primeiro que estava cheio quando surge o outro, que estava praticamente vazio. Desse outro, alguém gritava MAPUSA MAPUSA MAPUSA, o autocarro não terá estado mais que 10 segundos parado e eu lá entrei já com ele em andamento. Tentem visualizar o que de seguida vos conto: dois homens dentro do autocarro a gritar MAPUSA MAPUSA para a rua enquanto que o motorista, a alta velocidade, apitava como se o fim do mundo estivesse próximo e o autocarro dele estivesse a fugir. Eu já não conseguia parar de me rir, creio que terá havido um indiano ou outro que me percebeu. O autocarro terá estado mais tempo em contra-mão que na sua via, é incrível a forma como eles se esquivam em momentos tão precisos e a milímetros de terem um acidente. Continuo sem acreditar que ainda não vi um único acidente, mas talvez seja como o motorista do taxi de Arambol me falou quando lhe perguntei porque não vejo acidentes – “They exist, if you don’t seem them, it’s because you bring good luck with you”.
Após aquela corrida a alta-velocidade onde o autocarro parecia querer bater algum recorde de tempo e ao mesmo tempo de ocupantes recolhidos da rua à força, o autocarro faz uma paragem. Uma paragem de meia hora…! Fiquei sem perceber o porquê de toda aquela velocidade mas… ok, estou na Índia.
Com essa paragem arrisquei o comboi, e isso não podia de forma alguma acontecer pelo que fui de taxi assim que saí em Mapusa. Existem os taxi-carro, os rickshaw que são umas motas de 3 rodas e existem as motas. Surge-me um homem de mota que me pergunta para onde vou, digo-lhe que quero ir para Thivim, e sem pensar, aceito e subo para a mota. Não me ocorreu o medo que eu tenho a motas nem tão pouco o facto de estar com duas mochilas.

– Viagem Louca Indiana parte II:
Hora de ponta, trânsito louco, autocarros motas carros pessoas, tudo misturado, o taxista esguio tenta o mais rápido possível chegar ao seu destino, quase sempre em contra-mão e a desviar-se sempre quando eu achava que iamos bater e já não conseguíamos margem para a manobra. O homenzinho não terá quase nunca respirado de tanto que o apertei para me segurar. Chegamos a tempo de apanhar o comboio!

– Viagem Louca Indiana parte III:
O início desta minha viagem de comboio foi a continuação de uma loucura nunca antes vivida. Comprei o bilhete com 2 dias de antecedência e no entanto estava em lista de espera para conseguir um lugar, era o 167 passageiro em espera sem sítio no comboio onde poder estar. Entrei no comboio e sentei-me num lugar e esperei que tudo fica-se mais calmo para de seguida ir procurar o revisor e lhe expor a minha situação. Em frente ao lugar onde me sentei, estava um simpático casal que me ajudou imenso nesta aventura. A senhora era Goesa e sabia ainda algumas palavras em Português que havia aprendido na escola, o seu avô falava português. O marido deu-me a dica: “Vais ter com o revisor e vais suborna-lo, vais-lhe dizer que precisas muito de um lugar e dás-lhe 30 rupias”. Eu, que já havia visto de tudo ou quase, já nem estranhei e lá fui eu ter com o senhor. Até eu me conseguir entender com o homem, percorri a parte do norte do comboio desde o senhor que me dava as dicas, ao revisor, umas 5 vezes. Infelizmente não resultou, pois estava mesmo cheio e ele não podia fazer nada. O senhora das dicas diz-me para ir então à classe seguinte do comboio procurar o revisor dessa área. E eu fui. Entre uma classe e outra existe uma cozinha, e vocês não imaginam a confusão e caos que é atravessar essa carruagem. Dezenas de homens correm de um lado para o outro desenfreadamente, eu parei e comecei a rir ao observar aquela loucura, não consegui deixar de o fazer. Gritavam para todo o lado, tropeçavam, da cozinha vinha uma intensa mistura de odores e vapores quentes, o corredor da carruagem estava inundado de caixas e de refeições, mais tarde quando acalmou voltei para filmar. Entre o revisor da classe seguinte e o senhora das dicas, haveriam umas 5 carruagens. Até me conseguir entender com o revisor, atravessei e voltei ao mesmo umas 5 vezes, o atravessar a carruagem-cozinha era sem dúvida a parte mais complicada. Por vezes aproveitava o comboio parar para saír e correr sem ter que atravessar as carruagens. Haviam já indianos que se riam de tantas vezes que me viam a passar no mesmo sítio e eu igualmente já não podia deixar de me rir com a situação. Finalmente lá me entendi com o revisor e lhe paguei uns 8 eur pelo bilhete. 12,5 Eur no total que me ficou o bilhete de Goa para Mumbai, uma viagem de 12 horas. Muito dinheiro para as viagens low cost que ando a fazer! Mas não havia solução, só havia lugar nas classes de luxo. Finalmente encontrei o meu lugar e sentei-me, estava em um compartimento com uma família. Dormi as 12 horas… estava cansado de tanta aventura.


Amostra de louca viagem de Goa a Mumbai from Hugo Lima on Vimeo.

Índia _ Arambol e um por do sol de encantar

January 29th, 2009

Arambol (Goa), 10 de Janeiro 2009
Praia, ao luar da lua cheia : 21h00

Anjuna é extremamente perigosa para quem planeia uma viagem pela Índia. Aliás, toda a Goa o é.
Nestes últimos dias, foram vários os bagpackers que conheci e que aqui ganharam raízes, ficaram uma semana, duas, três… tem quem aqui esteja faz meses. É muito fácil habituar-se a esta vida e muito difícil deixá-la. Praia paradisíaca, boa comida e saudável, muita fruta e sumos naturais, festas e finais de tarde de encantar.
Era suposto já cá não estar, havia comprado bilhete de comboio para partir no Sábado, fui alterá-lo para partir na Segunda ao final de tarde. Vai custar muito deixar este belo lugar, mas neste lugar o tempo não pára e o meu é pouco e já só tenho metade.
Tenho conhecido vários viajantes, Anjuna é um ponto de paragem para a maioria deles, as perguntas que por aqui mais rolam são: “Estás na Índia faz quanto tempo?”; “Quanto tempo vais ficar?”, “De onde és?”. Acreditem ou não, de todos os que conheci, sou eu quem menos tempo de viagem terá. 1 mês é realmente muito pouco para algo deste dimensão, uns estão cá desde Agosto, Abril… estão pela segunda, terceira vez…

Adoptei duas meninas, a Susan (que na verdade chama-se algo como Sharow mas gosta de ter nome estrangeiro), e a Kirina, sua irmã [ver fotografias]. A Susan não sabe a idade que tem, diz que não comemora o aniversário porque é pobre, acha que terá entre 14 e 15 anos e a irmã 8. O negócio da família são as barracas de artesanato e roupa que existem na praia. Pelo que percebi, existe alguém que meteu toda a família na praia a vender os produtos que importa. Ninguém da família ganha dinheiro, esse alguém apenas os alimenta, mas eles têm que vender para justificar a comida que recebem. Susan e a irmã têm uma pequena lojinha de joalharia, uma pequena caixa que transportam e de turista a turista vão tentando convencê-los ou a comprar ou a leva-los à barraquinha de roupa.
Apaixonei-me pela Kirina, tem apenas 8 anos e é um prodígio. Aquela miúda em Portugal teria imenso sucesso na vida. A necessidade de vender para sobreviver e o facto de ter já crescido por entre turistas, levou-a a aprender muito bem o inglês e a saber como vender. É muito difícil dizer-lhe não. E é muito provavelmente a melhor vendedora da praia [ver video]. É extremamente inteligente e vai muito além do inglês básico e essencial para a sua sobrevivência, com ela conversei sobre imensas coisas. É difícil de acreditar que tem apenas 8 anos quando penso nas crianças que conheço da mesma idade. Vi-a apenas uma vez a agir, sorrir e brincar como uma criança de 8 anos. Provavelmente terá o mesmo destino que os mais velhos membros da sua família, gostava que entre tanta gente, encontra-se uma fada-madrinha que a tira-se daquele lugar e lhe desse um mais justo destino digno das suas capacidades.

Pelos lados de Anjuna, os dias são sempre iguais, com uma ou outra nova história que vai surgindo, mas basicamente acorda-se, vai-se para a praia, venera-se o por-do-sol e reúne-se após o jantar em um dos espaços de chill out para se conversar e tomar um chai. Tenho alguns casos engraçados que aconteceram, tive por exemplo um combate com uma vaca que me tentou roubar o almoço [ver video]. Não foi fácil, após o que se vê no vídeo, começou a marrar na espreguiçadeira e teve de vir alguém ajudar-me a afastá-la. Episódios semelhantes acontecem durante o dia com outros turistas, toda a praia ri quando tal acontece.
Também conheci um português, o único. Ouvi-o falar com alguém em espanhol acerca de uma convenção de malabaristas que iria acontecer no dia em que a lua iria estar mais cheia, e questionei-o em espanhol acerca dessa mesma convenção. Pouco depois percebemos que ambos eramos Portugueses.
Chama-se Tiago (ou Tiaguim), deixou tudo para trás e veio para a Índia. Antes trabalhava como gráfico de uma revista de surf e tem imensos contactos na área, viu o meu trabalho e motivou-me imenso a procurar apoios para futuras viagens, falou-me que me ajudaria com contactos e que acreditava que eu tinha trabalho para os conseguir. Deixou Portugal em Agosto e desde então que por aqui anda, de momento está a estudar yoga cá em Goa, faz algumas semanas. Através dele conheci a sua companheira, Natália da Bulgária e conheci também a Anouh, uma filha de pais Indianos que nasceu em Londres e que foi viver para Espanha.
O que temos todos em comum? Estivemos os 4 no Boom Festival em Portugal. Neste outro lado do Mundo, fui encontrar gente que esteve no mesmo lugar que eu à uns meses atrás – e ainda estaria por cá um outro português que é da organização desse festival.
Estaria a decorrer uma convenção de malabarismo em Arambol [ver fotografias], uma praia a alguns kms dali, de onde vos escrevo neste momento. A noite seria especial, noite de lua cheia na praia. Para lá fomos passar o dia, a praia era enorme, com imenso espaço e muitos poucos vendedores. Para se chegar à praia passava-se por milhentas lojas onde até placas escritas em russo existiam. Percebi pouco depois que abundavam por ali turistas russos. Fugindo a este foco turístico, chegamos a uma zona da praia quase deserta e sem indianos, a convenção de malabarismo estaria a decorrer em um espaço aberto, do outro lado de um pequeno rio que se atravessaria através de uma ponte de madeira. Lá dentro, só se encontravam estrangeiros, a ensinar, a aprender, a vender[ver fotografias]. Para quem já esteve no Boom Festival, aquilo era uma pequena amostra.
O final de tarde foi um momento mágico. De um lado, por detrás do mar, escondia-se o Sol, enquanto que do lado oposto, nascia imponentemente e vigorosa a Lua iluminando toda a praia e recortando coqueiros e palmeiras no cenário[ver fotografias] [ver video].
Como que em jeito de despedida do Sol e saudação à Lua, os presentes ora tocavam ora escutavam ora faziam acrobacias ora puro e simplesmente respiravam e viviam o momento.
Voltamos, sorridentes, para casa.

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Homem e Vaca Sagrada - O frente a frente

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Vídeos:


Anjuna Beach from Hugo Lima on Vimeo.


Anjuna Beach from Hugo Lima on Vimeo.


Anjuna Beach from Hugo Lima on Vimeo.

India _ Cada minuto conta

January 20th, 2009

Amigos, os meus dias têm sido intensamente preenchidos e de uma riqueza incrívelmente bela, tenho escrito e fotografado imenso mas não tenho tempo para aqui vos mostrar. Sinto-me fazer parte dos contos de fadas e das 1001 noites do ali baba. Neste momento estou perto do Paquistão e encontro-me no deserto a 65km de qualquer tipo de poluição visível ou audível. O céu é limpo e brilhante de noite, não se houve uma única buzina ou motor, apenas um ou outro camelo menos feliz. Tenho muito para vos contar mas por agora apenas vos deixo algumas imagens da minha pessoa e aleatorias destes últimos dias até Domingo.
Como por aqui se diz, dhanyevad por me terem acompanhado e partilhado estes momentos, assim que me for possível, colocarei aqui tudo o que tenho escrito e fotografado, só não vos garanto que tenham tempo para tanto ler…
Namaste!

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Índia _ Anjuna Beach, um pequeno paraíso na Terra

January 9th, 2009

Anjuna Beach (Goa), 7 Janeiro 2009
Praia, por-do-sol : 18h30

Escrevo-vos da praia de Anjuna, muito conhecida pelos hippies que alberga e as festas. Tem agora mais fama do que realmente é, a ocupação pelos hippies foi por volta de 1970 e agora é mais uma zona turística com algumas festas e um grande mercado.
Vim para Anjuna para relaxar, antes de partir para o norte, para o Rajastão. E digo-vos, que não existe melhor lugar para o fazer. A praia, é um paraíso. Coqueiros atropelam-se para chegar à agua, cabanas desde uma ponta da baía à outra, muitos restaurantes com música trance, chill out, esplanadas, puffs, grandes peixes a serem grelhados, imensos europeus e americanos (5 caras brancas por cada uma indiana). A temperatura é quente, mas agradável, o sol não queima. Neste preciso momento, o sol pos-se, e o momento é vivido intensamente. Olho à minha volta: uma praia paradisíaca, uma brisa de final de tarde bem quente e relaxante, um mar calmo que vai e vem e por vezes me ultrapassa a espreguiçadeira, um pouco mais distante (pois eu mantenho-me distante) pessoas dançam na areia, outros fazem uma espécie de veneração ao lindíssimo por-do-sol, começam a ser acendidas velas pela praia e alguns balões de fogo são lançados no ar. Para quem já viu o filme “A Praia”, é uma visão muito similar [ver video] [ver fotografias]. Mais que pelos hippies, Anjuna é conhecida pelo seu mercado semanal. Gentes de vários pontos da Índia e não só, fazem um enormíssimo mercado com uma enorme variedade de coisas. Tudo se vende. Além de indianos a vender, vi também europeus, nepalenses, japoneses e coreanos, hippies e mulheres tribais de Lamani, viajantes de todo mundo, tibetanos e mercadores de Caxemira, talvez ainda mais asiáticos de outras nacionalidades. Quem vem a Goa, tem que incluír este mercado na sua experiência. Além de sumos naturais, nada comprei, mesmo apesar de ser abordado de minuto em minuto para o fazer. Mas percorri todo o mercado, e vontade não me faltou, mas não me posso esquecer que ainda tenho um longo caminho a percorrer, não posso encher a mochila, e acredito que no Rajastão vá encontrar melhor por melhores preços.
Fiz uma amiga, chama-se Susan [ver fotografias]. Ontem passou o dia inteiro a querer levar-me à sua loja e hoje tentou o mesmo mas logo depois acabou desistindo. Terá ganho algum interesse por mim, quando não tinha clientes vinha-se sentar comigo, fazia-me perguntas e ainda me pediu para lhe pagar uma omolete e um chai. Começou por pedir a mais cara, eu lá fui negociando com ela e consegui que ela aceitasse a mais barata, 60 centimos (a comida não é muito barata em Anjuna).
Susan é de Hampi, de um estado aqui ao lado de Goa, Karnataka. Está com o pai, a irmã e marido da irmã. O pai tem uma loja na praia de roupa e ela tem a sua pequena lojinha de joalharia. Deverá ter uns 14 anos e usa a pinta vermelha na testa, perguntei-lhe se era casada – ela respondeu-me que só usava por ser fashion. Fiz-lhe alguns retratos e amanhã deverei voltar a tê-la como companhia.
Na praia, por entre os turistas, várias vacas ou gnus, os mais raros indianos a tentar ganhar dinheiro ora a dançar, ou pela forma como se vestem, ora a fazer acrobacias com um gnu ou a tocarem flauta. Não conheci nenhum branco pois estou propositadamente um pouco à parte e só, limito-me a viver e a observar, mas ainda houve alguns que me perguntaram de onde vinha, por quanto tempo ficava, não me cativaram as raves e os convites, embora vos diga que 80% das mulheres estrangeiras aqui presentes são lindíssimas… e cativam. Em muitas é bem visível que já cá estão faz muito tempo, vestem-se de forma tribal, estão muito morenas e embora magras, aparentam todas serem muito saudáveis. É dos ares, e da falta de stress, e o mar e praia fazem bem. Praia, uma cabana, peixe grelhado e sumos naturais, o que é preciso mais?

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Praia de Anjuna

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Vídeos do dia:


Primeiros minutos na praia de Anjuna from Hugo Lima on Vimeo.


Anjuna Beach à noite from Hugo Lima on Vimeo.


Anjuna Beach from Hugo Lima on Vimeo.


Bicharada da minha janela from Hugo Lima on Vimeo.

Índia _ A caminho de Goa

January 9th, 2009

Algures entre Mumbai e Goa, 6 de Janeiro 2009
Comboio Mumbai > Margão : 2h

Estou em viagem para Goa, e neste momento em que vos escrevo estas palavras, tento fotografar um pequeno rato que tem vindo visitar este compartimento. Estou em classe Sleeper. Uma espécie de segunda classe com direito a camas. Em cada compartimento, 6 camas, 3 em cada parede. Caso a cama do meio esteja a ser usada, ninguém poderá ir sentado.
Hoje de manhã, deixei a casa de Wasseem com a mochila de campismo e uma outra mochila. Ponderei ir de taxi para Colaba, mas decidi arriscar o comboio. Na estação, perguntei se estaría em hora de ponta, se a carruagem estaria cheia ou se não haveria problema e mesmo apesar de ter uma mochila grande, poderia ir na segunda classe. Disseram-me que não haveria problema, “go go relax”.
E assim o fiz, paguei os 9 centimos e fui para a plataforma. A quantidade de pessoas que aguardava pelo comboio não era nada confortante, e muito menos o foi quando o comboio chegou e vinham dezenas de pessoas penduradas do lado de fora em cada uma das carruagens! Foi um salve-se quem puder, com a experiências das anteriores viagens, meti-me à frente, empurrei empurrei, furava as pessoas, e mesmo com as mochilas, consegui entrar no comboio e não ter de ir pendurado. Quem estava por perto não deveria achar piada à quantidade de espaço que as minhas mochilas ocupavam enquanto que iam pessoas do lado de fora do comboio. Mesmo assim, alguém num dos bancos me ofereceu o lugar dele, em troca de muita conversa e fotografias com ele [ver video].

Passei várias horas da tarde a comprar o bilhete para Goa, fui interpelado por um suposto agente da estação que me ajudaria a confirmar quais os bilhetes disponíveis. Falou-me que estava tudo esgotado e que só dois dias depois teria bilhete. Levou-me a um escritório fora da estação e disse-me que ali teriam bilhetes de emergência para turistas, embora mais caros, fala-me primeiro em cerca de 4 Eur, depois desce para 3 Eur, disse-lhe que não pagaria mais que 1,5 Eur. Liguei para o Nenden e ele disse-me para eu saír dali, que era uma forma de sacar dinheiro aos turistas. Voltei à estação e encontrei uma bilheteira onde estavam vários estrangeiros [ver fotografias]. Pergunto-lhe pelo resto das pessoas, digo-lhe que tive que aguardar uma cama e quase para não ir pois o comboio supostamente estava cheio, ele responde-me, “This is India”.
O comboio é em ferro, as camas são em ferro, no tecto duas grandes ventoínhas servem para manter o compartimento fresco e ao mesmo tempo, arejar para que não síntamos os pestilentos odores que vêm dos wc e de algumas pessoas [ver video].
Digo ao meu companheiro de viagem que acabei de ver um rato, ele responde-me: “Relax, Sit Sit, you will see many more”.

Deixo para trás Mumbai e deixo-vos uma descrição que vi em um livro do que Mumbai é:
“Measure out: one parte Hollywood; six parts traffic; a bunch of rich power-moguls; stir in half a dozen colonial relics (use big ones); pour in six heaped cups of poverty; add a smattering of swish bars and restaurants (don’t skimp on quality here for best results); equal parts of mayhem and order; as many ancient bazaars as you have lying around; a handful of Hinduism; a dash of Islam; fold in your mixture with equal parts India; throw it all in a blender on high (adding generouss helpings of pollution to taste) and presto: Mumbai”

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Estação de Chhatrapatri Shiraji

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Vídeos do dia:


De casa até à estação de Bandra from Hugo Lima on Vimeo.


Comboio sandwich de Bandra até Mumbai from Hugo Lima on Vimeo.


Comboio de Mumbai a Goa from Hugo Lima on Vimeo.


Goa – De thivim a Mapusa, de Mapusa a Anjuna from Hugo Lima on Vimeo.

Índia _ Um Domingo em Mumbai

January 9th, 2009

Mumbai, 5 Janeiro 2009
Casa do Wasseem : 6h

Ontem, foi Domingo, e o trânsito em Mumbai parou, excepto os comboios.
Fui apanhar o comboio na estação de Bandra, e vi o que não havia visto de noite. De um lado da estação, casas por entre esgotos e lixo, crianças e adultos caminham por entre o lixo, a enorme estação decadente e visível em toda a sua extensão. [ver fotografias]
Apanhar um comboio, pelo menos em Mumbai, é uma aventura.
Queria escrever e pensei: “escrevo no comboio”. Mal sabia o que me esperava. Quando o meu comboio chegou, vinha com várias pessoas do lado de fora, penduradas em cada uma das entradas. E quando essas pessoas não saem e estão umas 500 para entrar? É empurrar empurrar empurrar.

Ao chegar a Colaba liguei ao Nenden, falou-me para nos encontrar-mos na Universidade de Mumbai. Quando cheguei, dezenas de pessoas jogavam Criquet [ver fotografias] [ver video]. O criquet na índia está a tornar-se em um dos seus mais importantes desportos e prestes a ultrapassar os ingleses! Existiam várias áreas no campo da universidade, jogadores profissionais, semi profissionais e amadores. O Nenden tem 31 anos embora não o aparente, nenhum hindu o aparenta, talvez seja a filosofia deles, não se preocupam com nada. Falou-me do criquet e dos seus sonhos. Adora conhecer estrangeiros e conhecer histórias. Coleccionou tantas histórias que sabe os melhores negócios e como vencer na vida. Tem o caminho dele idealizado, quer ir para a europa e tem-se preparado para isso. Aos 15 anos deixou Udaipur, a sua terra natal, e viajou por toda a Índia, deu-me várias dicas de onde ir e onde ficar e os preços que deverei regatear. Levou-me a restaurantes baratos dos locais e apresentou-me aos amigos, falou-me de deuses e religiões. Fez-me uma lista de locais que deveria visitar durante a tarde e assim o fiz. Apanhei um bus para um dos pontos mais altos da cidade e fui ao Hanguing Garden, dos mais bonitos e cuidados jardins da cidade [ver fotografias]. Famíias ricas passeavam, uma deles veio-me conhecer e fazer perguntas sobre mim, desci pelas ruas da cidade até à praia. Chowpatti Beach era o seu nome [ver fotografias]. Pelo lado que entrei, a praia era degradante, um esgoto ia dar às suas águas, e nesse lugar, crianças tomavam banho. Casas de plástico acumulavam-se, pombas águias falcões corvos, todos se misturavam, fui percorrendo a praia e fui-me tornando o centro das atenções. Fiz uma caminhada muito calma, a passo lento, demorava, observava, trocava sorrisos, sentava-me com quem mostrava interesse, tinha conversas, faziam-me muitas perguntas. A praia estava cheia, na parte onde me encontrava já não se via pobreza, muitas famílias sentavam e conviviam, grupos de curiosos vêm ter comigo, fazem-me perguntas, pedem-me o nr. de telefone, não acertam nunca no meu nome. Fez-me lembrar um pouco os extintos passeios de Domingo em família, em que irmãos primos e tias se reuniam e conviviam.
Na última metade da praia, as famílias eram notavelmente mais ricas e a praia mais limpa, não havia misturas com gente pobre, não percebi onde estava o limite nem o que o definia, mas aparentemente era respeitado. Caminhei pela marginal da praia mais uns 5 Km, estava cheia de famílias a contemplar o por-do-sol enquanto que as ruas estavam estranhamente calmas, é Domingo…
Ligo ao Nenden e vou ter com ele, ele leva-me a um restaurante que serve um manjar dos deuses, vários tipos de peixe acompanhado por duas Kingerfish de 1 litro (Kingerfish é das melhores e a mais conhecida cerveja na Índia). O jantar custou-me uns 8 eur, dava para jantar umas 5 vezes, digo a mim mesmo que não voltará a acontecer e sigo apanhar o comboio para casa. 9 centimos viagem de comboio de 1 hora, agora sim, viver a Índia.
Algo curioso acontece nessa viagem, em uma das paragens, entra um travesti que começa a bater palmas a cada um dos presentes e em resposta recebe um sinal por cada uma das pessoas. Eu ignorei-o(a) e ele(a) proferiu algo, não ficou lá muito contente. Mais tarde fui pesquisar no meu livro e percebi que na religião hindu, os travesti assim como os eunucos, pertencem a uma casta chamada de Hijras, Alguns são gays, alguns hemafroditas, e alguns são uns desafortunados que foram raptados e castrados. Consideram-se uns previligiados e são aceites na sociedade como um terceiro sexo. Li também algures que lhes dão dinheiro pois dar dinheiro a Hijras traz boa sorte aos filhos.
Desta vez não fui a pé da estação de Bandra, precisava chegar cedo pois supostamente o Wassem estaria em casa. Mas não estava. Estive 4 dias em casa do Wasseem, ele não me conhece, nunca nos vimos, apenas falamos por email, deu-me a chave de casa e nunca mais me disse nada. Obrigado Wasseem. Não voltarei certamente a ter condições destas na minha viagem. Deixei-lhe uma garrafa de azeite extra virgem e uma outra de vinho do Porto, como sinal de agradecimento.

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Crianças pobres residentes na praia de Chowpatti Beach

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Vídeos do dia:


Criquet na Mumbai Univercity from Hugo Lima on Vimeo.


Chowpatty Beach – Mumbai from Hugo Lima on Vimeo.

Índia _ Uma visão sobre Bandra

January 9th, 2009

Mumbai, 4 Janeiro 2009
Comboio Bandra -> Colaba – 8h00

Os comboios, acastanhados por côr e sujidade, parecem galinheiros, são todos em chapa e com janelas aos quadradinhos. No tecto, várias ventoínhas percorrem a carruagem, cheia de pessoas. Tanto no comboio como em todo o lado, sou alvo de olhares e de uma forma muito óbvia, na rua sou observado por segundos, mas no comboio, é toda a viagem. Peço a alguém que percebi que falaria inglês, para me avisar da minha paragem. Quando estou a partir da penúltima paragem, já o senhor me está a dizer e a insistir que a minha paragem é a próxima e para eu me aproximar da entrada, insiste ele e os amigos, “go go go” diziam eles. Percebi logo de seguida o porquê – eram tantos a saír e a entrar ao mesmo tempo, que alguns ficaram no comboio.
Cheguei a Bandra por volta das 23h e deparei-me com um cenário impressionante. A estação é feia, como que se tivesse ficado por construír, imensos sem-abrigo dormem espalhados pela estação por entre lixo e defectos, na rua a sujidade é surpreendente, esgotos abertos correm ao lado de sem-abrigo que se acumulam nos mais escuros cantos. Mais trânsito, mais caos.
Decidi ir a pé, quis conhecer mais das ruas fora do circuito do transito. A visão que tive foi a mesma que a anterior mas ampliada por 3. Pobreza extrema, cenário apocalíptico.
Cerca de uma hora de caminhada depois, cheguei ao apartamento, que comparado com tudo o que acabava de assistir, é um luxuoso apartamento.
Wasseem continua sem aparecer em casa.

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Tecto do comboio

India _ Uma viagem de autocarro

January 9th, 2009

Colaba (Mumbai), 3 de Janeiro 2009
Comboio – Colaba -> Bandra : 21h00

Uma curiosidade que ainda não consegui satisfazer acerca dos indianos, é a forma como eles por vezes nos abanam a cabeça. Faço-lhes uma pergunta e eles conseguem fazer algo com a cabeça que eu não consigo reproduzir, pelo menos com a mesma agilidade. Não dá para perceber se é um sim, se é um não, parece um misto de ambos. Sejam homens, crianças ou mulheres.
Hoje não fui de taxi para o centro de Mumbai, experienciei o meu primeiro transporte público de Mumbai [ver video] [ver fotografias].
Imaginem… um autocarro para o centro da cidade cujo limite de lugares não existe e cujo número populacional é de 16 milhões de pessoas. Conseguem? Eu ajudo… quando apanhei o autocarro, encontrava-me ainda em Bandra, ele estava cheio mas algo espaçoso entre quem seguia em pé. Pouco depois começou a deixar de existir espaço e quando eu reparei, do meu lugar ao lado da janela e perto da porta, já existiam pessoas penduradas com o bus em andamento. Nas paragens seguinte, grupos enormes de pessoas aguardavam o bus sendo que isto além de cheio ia já com pessoas penduradas. Era a loucura! Todos a empurrarem-se e outros a aproveitarem as janelas abertas para se pendurarem [ver vídeos e fotografias]. Saí no terminal onde já não havia muita gente.
Era já noite quando me perdi, quer dizer, na verdade eu sabia onde estava, não conseguia era saír de lá! Como sempre, desviei-me do percurso turístico de Mumbai e comecei a entrar por pequenos e decadentes caminhos até que fui entrar em uma pestilenta praça. Corria pelas ruas o que me parecia ser um esgoto, um mercado nocturno decorria fervilhando de actividade, pessoas, motas e bicicletas, todos gritavam, todos tinham algo para vender, vendiam-se maioritariamente alimentos. Por 5 vezes saí dali e por 5 vezes acabei indo ali parar. Parecia um labirinto cuja entrada era a saída. Durante todo esse tempo, um rapaz a tentar vender-me droga acompanhou-me por algum tempo, desisti de lhe falar após a décima vez que lhe disse que não fumava e foi necessário falar-lhe agressivamente para que ele não me perseguisse mais, já havia passado hora e meia! [ver video]

Sou interpelado por um outro rapaz e estou já preparado para lhe dizer que não a qualquer proposta que tivesse para me dar quando me começa a fazer perguntas sobre mim, pouco depois estavamos sentados a trocar impressões e ele ofereceu-se para andar comigo amanhã e levar-me a vários sítios em troca de uma Kingerfish. Marca-mos para as 9h. Chama-se Nenden.

Voltei de comboio para casa que vos descreverei na próxima vez que escrever. Mas desde já vos digo que viajar de transportes públicos na Índia é muito barato, 6 Rupias ( 9 centimos) é quanto custa o bilhete para uma viagem de cerca de 1 hora.

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Alguém que não conseguiu entrar no bus, vai do lado de fora

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Vídeos do dia:


Uma viagem de bus de Bandra a Colaba from Hugo Lima on Vimeo.


Cerimonia Hindu from Hugo Lima on Vimeo.

Índia _ Explorando Mumbai

January 3rd, 2009

Bandra (Mumbai), 3 de Janeiro de 2009
Casa de Waseem Kahn – 10h32 Locais (5h17 em Portugal)

Deitar cedo e cedo erguer. Ontem seriam umas 23h quando me deitei, acordei eram 6h. Por volta das 18h já está escuro, janta-se cedo, depois disso não se passa nada, pelo menos aqui em Bandra. No centro de Mumbai as ruas dão lugar a mendigos e gente estranha, mas os carros não param.
Pouco depois de ter acordado tocou à campaínha uma senhora, terá uns 40 (ou talvez menos uma vez que envelhecem mais rápido devido às condições que têm de vida). Ontem, também aqui veio à mesma hora. Entra em casa, sorri, pega em uma vassoura de cabo curto, e de cócaras começa a varrer a casa e a lavar o chão. Tem uma figura frágil, é baixa e magra, bonita e morena, veste cores garridas. Não fala inglês, pouco comunicamos, tentei oferecer-lhe uma laranja. Consegui-lhe o nome… qualquer coisa de Ashram… ontem pelo que percebi, será a mulher de Waseem. O Waseem ainda cá não está, continuo com a casa para mim, e pelo que percebi, a mulher disse-me que ele viria amanhã.
Um corvo veio-me dar os bons dias, passou para o lado de dentro da grade, confesso que o tamanho dele não me deixa confortável… espero que não se aproxime mais. A minha cama é encostada à janela, estou semi-mu e às 7h já faz calor. Ontem havia reparado em uma águia (ou falcão?), hoje reparei que existe um ninho mesmo em frente à janela [ver vídeo], será então um falcão e uma águia (?) e têm pelo menos duas crias. Por momentos senti-me num national geographic vida selvagem ao filmar o alimentar das crias.
Mumbai é um caos. E existem muitas pessoas muito ricas e outras muito pobres. É ver os grandes carros por entre a mendigagem na rua.
Ontem comecei a caminhar cedo, primeiro aqui em Bandra, era alvo de constantes olhares, isto não é uma zona turística, ninguém aqui vem e eu só aqui estou pelo apartamento que me emprestaram. Comecei a entrar no que me parecia uma favela até que não havia saída. Dezenas de miúdos e adultos à minha volta a falar comigo, ninguém me pedia dinheiro (o que é anormal face ao centro de mumbai), mas eu não compreendia ninguém, nenhum sabia falar inglês. Um adulto diz algo a um miúdo e ele após algumas tentativas diz-me “what do you want?”. Eu gesticulo dizendo que apenas estou a observar, entretanto surge um indiano que me diz “Come with me”, e eu lá obedeço sem questionar. Passado alguns minutos estou no meu ponto de partida e ele segue o seu caminho. Talvez a minha presença não fosse bem-vinda.
Apanho o taxi para o centro de Mumbai, acerto o preço, 220 rupias, uns 3.5 Eur. Torço o nariz mas a verdade é que em mumbia usam taximetro, o preço não haverá de ser muito diferente com os outros taxistas. Aceito, mas no dia seguinte irei de camioneta.
Caos, caos caos. O transito em mumbai é um grande caos, é um salve-se quem puder e todos entram entrar no mais minúsculo espaço da fila. Não compreendo como não vejo acidentes ou pessoas atropeladas. O barulho das buzinas é ensurcedor, não há leis e está muito calor. A viagem dura quase uma hora, os 3.5 Eur de taxi foram bem aproveitados, mas continuarei a querer ir de camioneta com o povo, pelo menos durante o dia.
Chegado a Mumbai vejo o agora muito mais conhecido por todos devido aos recentes atentados, Taj Mahal Hotel[ver fotografias]. Está fechado e todas as estradas que o rodeiam também, a polícia não deixa ninguém entrar, está a ser restaurado. São ainda visíveis as marcas do incêndio. Ao lado, uma grande praça, muitos turistas orientais e ocidentais, muitos barcos e a ir e a vir, muitos mendigos e muita gente a tentar vender algo. Passeio todo o dia a ser interpelado por alguém ora a tentar vender algo ora a pedir-me dinheiro. No início não é fácil recusar, mas pouco depois percebemos que se vamos estar por cá algum tempo temos que saber dizer não, a tudo. Na praça, tiro umas fotografias ao hotel e a algumas crianças que andam a pedir, dou-lhes algumas rupias [ver fotografias]. O restante dia é passado a caminhar. Ao final da tarde fui a uma livraria e tomei um Chai delicioso, quero voltar. E quero convencê-los a darem-me a receita. Comprei um livro, um guia da Índia, é pesadíssimo e quase não o ia comprar por causa disso, mas é muito completo e feita a pensar em quem anda a viajar sozinho e em low cost misturado com o povo e a andar nos transportes do povo. São umas 18h e já é noite, não se vê turistas, nas ruas nascem autênticos restaurantes [ver fotografias], vêm-se grupos de crianças a fazerem a cama, estão sozinhos e sem adultos por perto, só o trânsito não muda, continua frenético. 1 dia antes de vir para a Índia lembrei-me que nas minhas intermináveis viagens de comboio, terei que ter algo para me acompanhar, música. Não fui a tempo de comprar um leitor de mp3 e deixei para depois. Por sorte, enquanto andava pela rua, tentaram-me vender um ipod usado, 1gb apenas, não sei se terei feito um bom negócio, ele queria 25 Eur, comprei por 15 Eur, mas acho que em Portugal pelo mesmo conseguiria algo em segunda mão melhor. Seja como for, 15 Eur é aceitável para tal companhia.
Os autocarros estão todos eles cheios, e quando digo cheios, digo cheios por dentro e cheios por fora, tem quem vá do lado de fora…
Decido ir para casa e lá apanho um taxi, falo acerca do preço da viagem e lá vamos nós. O taxista cujo nome já não recordo como pronunciar, é muçulmano e veio de Delhi para cá trabalhar, 3 filhas e 3 filhos [ver video]. Mas ele quer é saber de mim e da minha vida e quer também saber do dinheiro do meu país. Mostro-lho uma nota de 10 eur e ele faz conversa e passa o resto da viagem e dizer-me coisas como “Hugo you are a great man and a good friend”. Não Hugo, pois ele nunca acertava no meu nome, será sim Huhu ou algo que soava a um You Go (apetecia-me responder com um “I go Where?”). A nota de 10 Eur entretanto já estava debaixo do volante. Não disse nada e deixei seguir. O fascínio terá surgido quando eu lhe disse que ela valia umas 670 Rupias.
Uma longa viagem depois, pois o transito estava caótico, e após nos termos novamente enganado para chegar ao apartamento em Bandra lá chega a hora de lhe pagar, esperei que ele dissesse algo e nada disse, tive de ser eu a perguntar-lhe pela nota. Achou que fiquei chateado, mas não fiquei e dei-lhe uma moeda de 1 eur, ele saíu do taxi e foi comprar um chocolate para me o oferecer.
Antes de ir para casa, fui a uma pizzaria que descobri. Pizza sem picante!! Fabuloso! E a um preço não turístico, ainda melhor! Pago 30 Rupias (0.60 Eur) pela pizza e trago-a para casa, estava uma delícia.
Eram quase 23h quando me deitei, tive que me despir, o ar estava quente e pesado.

Já se faz tarde, vou saír, explorar outra zona de Mumbai.

Clicar na fotografia abaixo para ver as restantes:

taj mahal hotel

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Vídeos do dia:


Noite em Mumbai from Hugo Lima on Vimeo


Bus em Mumbai from Hugo Lima on Vimeo.

Bus em Mumbai from Hugo Lima on Vimeo.

Bus em Mumbai from Hugo Lima on Vimeo.

Índia _ A chegada

January 2nd, 2009

Mumbai, 2 de Janeiro de 2009

Casa de Waseem Kahn – 7h00 Locais (2h30 em Portugal)

 

Cheguei, já cá estou. O voo correu bem, mais umas refeições, mais uns filmes. Pude contemplar a imensidão de Mumbai através dos biliões de pontinhos de luz que se faziam mostrar lá em baixo. O avião aterrou, e até parar definitivamente, andou cerca de 10 min… recordo-me agora que quando estive em Mumbai para fazer ligação a Goa, andei de camioneta uns 30 min dentro do aeroporto até chegar ao avião.

Caos. Indianos vindos de todo lado encontram-se em um único ponto.[ver vídeo]
Empurram-se, ultrapassam-se, à minha frente um senhor deixa caír os óculos no chão e manda parar tudo para os procurar, vejo vários a saíram da fila e a passar à frente sem dar satisfação a ninguém. A polícia tenta controlá-los e manda-os de novo para o lugar, mas enquanto viram costas, outros aproveitam para poupar mais uns minutos de fila. São cerca de 5h da madrugada locais, está calor. Dizem-me que estarão uns 25 graus. Após 1 hora na fila para passar o controle, vou procurar a minha mochila, encontro-a e ponho-a às costas. Digo para mim mesmo, estou na Índia, e sorrio.

Com a maior das calmas, vou-me dirigindo para fora do aeroporto, observo tudo e todos. 3 homens de 3 lojas de câmbio diferente pedem-me para lá ir trocar dinheiro, torna-se tão forte a disputa que eu começo-me a rir bem alto e acenando-lhes com um sorriso digo que não preciso. Vou comprar um pre-paid ticket para o taxi (isto significa que os taxistas não têm poder sobre o valor a cobrar pela corrida, o que é optimo, o valor é determinado na altura da compra). Dão-me um papel com o nr. do taxi que deverei procurar e parto então à descoberta por entre vários taxis de vários feitios e tipos. Encontro o meu, o senhor pouco inglês fala, mas tem ar de simpático [ver vídeo]. Ainda é de noite mas já anda muita gente pela rua, meto conversa com o senhor mas ele só me sabe responder com sorrisos. Primeiro momento delicioso (infelizmente não registado pois fui apanhado desprevenido) – uma cerimónia Sikh (uma das religiões). Um grupo de pessoas na rua às 5h da madrugada a cantar e a tocar pandeireita. 30 minutos de viagem e chegamos a Bandra, uma zona de Mumbai aí estaria a casa onde eu iria ficar. A casa pertence a Waseem Kahn, um senhor que conheci através de email à uma semana, sem qualquer contacto anterior. Waseem, aceitou-me na casa dele e respondeu-me que não iria estar no dia 2 em casa, pelo que iria deixar a chave com o porteiro. Deu-me as indicações de como chegar a sua casa e deixou-me à vontade. Melhor não podia ser.

Em Bandra, procuramos pelo apartamento, gastamos mais 30 minutos, perguntamos a várias pessoas até que alguém nos indica o caminho. Perdemo-nos uma e mais outra vez, pudera, caminhos labirínticos de terra vacas e vendedores de rua. Para minha surpresa, começo a entrar em uma zona com bons carros nas entradas dos apartamentos. Mona Lisa building, digo ao taxista para parar e dou-lhe uma merecida gorjeta pelo sorriso, 100 Rupias (1,5 Eur) quase tanto quanto a viagem de 1 hora e mais do que alguma vez deixei com um taxista português. Dirijo-me ao sr. porteiro do edifício e ele já me aguardava, entregou-me a chave e no dialecto dele lá me disse, 4º andar nr. 44.

Apartamento simpático, espreito pela janela, corvos, muitos, e…. aquilo é uma águia?  Não, são várias! Apercebo-me da quantidade de águias e corvos nos parapeitos da janelas. Sortudas, o que não falta é malta vegetariana por estes lados.

Vou tomar um merecido banho, e dormir um pouco… tenho um mundo lá fora para descobrir.

Índia _ Qatar

January 2nd, 2009

Doa (Qatar), 1 de Janeiro 2009

Doa Airport – 16h59 (19h59 – hora local)

 

Quase… mais um voo e chego ao meu destino. Engane-se quem acha que voos de 9 horas são uma seca. Pelo menos através de companhias destas. Já viajei pela Jet Airways e agora pela Qatar Airways. O petróleo ergue impérios. Companhia 5 estrelas, não falta comida nem bebida, nem distracção. Um monitor frente a cada lugar, um joystick, uma base de dados de música e de filmes (alguns que ainda estão no cinema). Vejo o Dark Knight + Eagle Eye, como a minha primeira refeição vegetariana Hindu (a muito muito custo). Porque será que usam tanto picante? Adormeço um pouco e eis que estou prestes a aterrar em Doa.

Vejo a vista através do avião. Um misto de deserto com águas verde claras. Um imenso vazio onde nada existe, e eis que me espanto com um grande WOWWW audível para os senhores nos lugares mais próximos. Partilho a minha visão, de um absoluto deserto, surge um círculo de arranha-céus… não existem casas mais pequenas ou bairros, um degradê económico. Não. É tudo riqueza extrema, edifícios altamente modernos e muitos ainda em construção, uma minúscula cidade que não terá mais de 10 anos. Tanto quanto sei, os países vizinhos vivem situação semelhante. Pelo que percebi, reza a história deste, que até 1940 era um país pobre por desenvolver, depois disso descobre-se o petróleo e é em 1995 que um Sheikh do petróleo que começa a desenvolver o país. Creio que o que lá fora vi foi um desenvolvimento de apenas uns 10 anos.

Estou de t-shirt, são 20h aqui mas o clima é húmido, transpiro  um pouco. Árabes e Indianos, poucos ocidentais. Observo as mulheres, devo ter contado já cerca de uma dezena de tipos diferentes, vestes diferentes, modos e costumes diferentes. Várias apenas com o olhar a descoberto [ver vídeo]. A maioria dos homens veste-se de forma igual, túnica branca desde a cabeça aos pés e sandálias. Tal como lá fora, cá dentro é igualmente tudo sinónimo de riqueza, tudo muito recente e moderno. Dou uma vista de olhos em uma loja que tem desde o tabaco a altas tecnologias – tudo caríssimo. Índia… vou a caminho!

Índia _ Passagem de Ano

January 2nd, 2009

Londres, 31 Dezembro 2008

Heathrow Airport – 23h40

 

O gigantesco aeroporto de Heathrow tem comboios para fazer ligação entre terminais.

Cheguei do Porto ao terminal 2. Percebi que será talvez um terminal de onde chegam e partem passageiros  que provêm de destinos dentro da Europa.

Indicaram-me o terminal 3 para o meu próximo voo, ás 6h. Deixo para trás umas dezenas de rostos europeus e 15 minutos depois estou a chegar. Já me era familiar o terminal, da última vez que fui à Índia, voei a partir de lá. Mas hoje é uma noite diferente, o aeroporto está vazio, nem passageiros, nem trabalhadores. Vagueio pelo terminal sem me cruzar com uma única pessoa, dou lanço no troley, uma vez, outra, coloco-me em cima e deixo-me ir, repito, e repito. Beco sem saída, apanho o elevador para o piso de cima. Gente! Uma senhora indiana – vou-lhe perguntar o melhor sítio do aeroporto onde passar a noite. Não me compreendeu. Pergunto-lhe a zona onde mais gente terá. Lá sigo as indicações, uma pessoa aqui, outra ali. Nenhum europeu. Até chegar ao local deverei ter-me cruzado com umas 15 etnias diferentes. Fico com a sensação de ter chegado a um lugar de nenhures ao qual todos pertencem, um ponto de encontro mundial.

Escolho um sítio para me instalar, será ali que aguardarei durante 6 horas pelo meu voo. Não há actividade alguma, está tudo fechado, somente alguns passageiros sentados. Todos em silêncio. Um casal de columbianos, um indiano, uma miuda – talvez de cá, um casal tipicamente britânico com cerca de 60 anos, uma família que me parece africana e um senhor, com ar de não pertencer a lado algum, aparenta andar na estrada faz muito. Deduzo-o baseando-me na forma como ele se conseguiu deitar em 3 bancos que estão divididos pelo separador, mas mesmo assim, de forma esguia, conseguiu contornar o problema e aparenta estar em sono profundo. A almofada, são as botas.

Parto à descoberta do espaço, dou uma volta, volto ao meu lugar. Faço qualquer coisa para comer e volto a ir dar outra volto. Busco por alguma tomada, preciso carregar o telemóvel. Carrego-o por alguns minutos, é quase meia noite. Pergunto-me o que acontecerá, haverá festejo?

Sento-me no meu lugar, chegam mais duas pessoas, não têm ar de chineses nem japoneses… Mongólia talvez.

Meia noite. Silêncio absoluto. Reacção nenhuma. Observo cada pessoa, ninguém olhou o relógio, ninguém fez ar de diferença [ver vídeo]. Lá fora, igualmente calmo. Provavelmente a passagem de ano mais calma da minha vida. Recebo um telefonema, do outro lado duas amigas a desejarem-me um bom ano. Quebro o marasmo e respondo-lhes bem alto e descrevo-lhes a situação. Recebo alguns olhares, foi o momento com mais acção da noite…


A meia noite…

Índia _ A partida

January 2nd, 2009

Porto, 31 de Dezembro 2008

Aeroporto Sá Carneiro – 18:58h

 

Ainda não me tocou a consciência de que estarei ausente por um mês, sozinho, em um país estranho e distante. Creio que tal só acontecerá daqui a 2 dias, quando lá aterrar.

É hábito movimentar-me sozinho, gosto de o fazer e ter autonomia total sobre as minhas decisões. Por algumas vezes o fiz, mas nunca por mais que uma semana e nunca para fora da Europa. Comparando a esta viagem, as minhas solitárias idas a certas cidades europeias são como uma voltinha à Baixa, acaba sendo sempre mais do mesmo. Confesso que sinto um fervilhar, misto de ansiedade-receio, algo que se assemelha ao que senti na primeira viagem que fiz sozinho.

 

Pouco passa das 19h, devo contar umas 20 pessoas, pouco mais ou pouco menos, deve ser a primeira viagem que faço com tão pouca gente no avião. As portas de embarque para outros destinos estão igualmente praticamente vazias. Daqui a 4 horas e meia é 2009. Será certamente por isso. [ver vídeo]

 

Já me encontro no avião, neste preciso momento a sobrevoar Espanha. Confirmam-se as cerca de 20 pessoas, o vazio é ainda mais notável dentro de tão grande avião. Pergunto-me quantas destas pessoas ficarão em Heathrow para mais uma escala. Provavelmente nenhuma.

Estou curioso por experienciar uma Passagem de Ano no aeroporto. Não deverão ser muitas as pessoas em idêntica situação à minha, mas algo me diz que a meia-noite será assinalada com alguma surpresa proporcionada por quem dirige o aeroporto. Tenho a certeza que será especial e diferente. Por falar nisso… esqueci-me das uvas passas…

 

Chegou a refeição. Será a última aceitável por durante 27 dias. Adoro a Índia, mas como odeio a sua gastronomia….

Voo com a TAP, é a segunda vez que o faço, a última foi igualmente um voo para Heathrow quando fui pela primeira vez à Índia.

De todas as outras vezes, voei pela Ryanair – low cost. Existem certamente algumas diferenças em termos de qualidade de serviço, mas não suficientemente importantes para que me façam diferença, e economicamente, não justifica a diferença de preço no valor do bilhete.

Mas desta vez apanhei uma promoção, e veio mesmo a calhar pois a Ryanair não voa para Heathrow e é limitada em termos de bagagem, teria de pagar mais se levasse bagagem de porão. Normalmente nunca levo, levo somente uma mochila normal comigo no avião. Mas é a Índia… levo uma mochila daquelas de campismo que neste momento está quase vazia (1 calças,1 sweat,1 calções+outros de banho, 3 t-shirts, 1 par sandálias, e alguns boxers e meias – o mínimo, se precisar de mais compro lá) mas quero-a trazer bem cheia! Falava das diferenças e não posso deixar de referir as mulheres, as tripulantes de bordo. As da Ryanair são todas elas um bocadinho para o… não muito bonitas (Será por ser low cost…?). Já as da TAP, são todas elas mulheres bonitas (Ou será por serem Portuguesas?). Sem dúvida que mulher Portuguesa é sinónimo de mulher bonita,das mais bonitas da Europa, venham as inglesas-irlandesas-alemãs-suecas-francesas-holandesas-e mais do mesmo, não se inclui as Italianas, essas a história é outra.

Sobrevoo Le Mans. Sandes de carne assada, sumo de maçã, e salada de fruta. Alimentar-me-ia disto o mês inteiro só para fugir aos ultra mega spicy dishes indianos.

 

Cometi o terrível erro de não trazer leitor de mp3. Vou comprar um mal chegue a Mumbai ou não sobreviverei às longas viagens de comboio de 20km/h a 35º em compartimentos de 4 pessoas que com jeitinho levam 8.

Já não deve faltar muito para chegar a Londres, sobrevoo o Canal da Mancha, vou ler um pouco e abrir o coração ao que me espera. Para já, festa de passagem de ano no aeroporto no terminal internacional onde imagino que esteja uma mistura de pessoas dos mais longínquos lugares da Ásia Central. Estão todos convidados!

AOS MEUS AMIGOS

January 1st, 2009

CARTA ENVIADA A 15 DE JANEIRO DE 2009 – aos contactos amigos que tinha organizados, não a todos os que gostaria.

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Meus amigos,

Um dia descobri que existia algo mais para além do que eu conhecia no lugar onde cresci, a Trofa. Lembro-me desse dia. Continuo a descobrir e desde então não parei.
Já Pessoa falava da felicidade enquanto ignorante versus felicidade enquanto explorador. Posso declarar que sou uma pessoa feliz, mas não sou uma pessoa satisfeita e conformada, e receio nunca o vir a ser.
Vivi em um mundo pequeno, no qual era feliz com aquilo que tinha e conhecia. Não tinha um vazio, sentia-me preenchido. Um dia vi uma ponta de um cordel de conhecimento que me levou para lá das fronteiras desse mundo, agarrei o cordel e comecei a percorre-lo, iniciei uma viagem sem retorno. Na altura, desconhecia que este cordel que me foi destinado só tivesse uma ponta, pelo menos para que seja descoberta em uma só vida (de onde vos escrevo, crê-se na reencarnação: talvez se eu a este lugar pertence-se acredita-se que daqui a muitas vidas essa ponta surgiria).
Felizes dos ignorantes, que vivem com o que conhecem e não procuram por mais. A minha sede pelo conhecimento leva-me a percorrer diariamente por mais e mais, e quanto mais descubro, mais desejo e maior esse mundo se torna. Sou feliz, mas não me sentirei completo enquanto souber que existe algo mais para além do que conheço. Sentir-me completo… uma utopia?

Pelo caminho que percorri, conheci imensas pessoas, umas continuam no lugar onde as encontrei, outras iniciaram um novo caminho e outras acompanham-me neste presente. Neste meu presente, o meu tempo consome-se rapidamente, e recordo-me do dia que isto tudo começou como se fosse faz pouco tempo, muito menos que os já quase 8 anos passados. 8 anos…! e no entanto, sinto que esta aventura ainda está a começar. No percorrer da aventura e com o constante ritmo de actividade em que me encontro, tornei-me, para alguns, em uma pessoa ausente. Para alguns desses alguns, uma pessoa ausente cuja ausência não compreendem nem é justificada. É principalmente por isso que hoje escrevo, para aqueles que por ele esperam, um pedido de desculpa, por favor aceitem-no, de alguém ausente mas que ninguém esqueceu e que a todos na sua vida mantém presente, um por um. Perdoem-me igualmente a ausência aos cafés / jantares / aniversários / momentos importantes da vossa vida. Acreditem em mim, em todos eles desejei imenso estar presente… palavra de amigo.
Aos meus amigos da Trofa que comigo cresceram e são sempre os primeiros lembrados; aos meus amigos da capoeira e do Porto onde a ponta do cordel encontrei, do Mindelo onde também cresci e faseadamente me ausentei e a importantes momentos faltei; das mil andanças; aos companheiros do malabarismo onde alguns deles acompanham-me no caminho e se encontram espalhados por diversos lugares deste planeta a percorrer sonhos, aos meus amigos deste último presente que diariamente comigo se cruzam, perdoem-me as falhas e ausência, recordo de todos vocês e mantenho-vos presentes na minha vida, um a um.
Onde estou, tenho tempo para reflexões e introspecções.

Envio-vos este email a partir de Pushkar, no estado do Rajastão – Índia, escrevi-vos durante uma das minhas viagens durante a qual fiz este vídeo que retrata um grão no deserto da loucura que por aqui se vive, vejam-no -> http://www.vimeo.com/2826569 (encontram a história do vídeo no blog que refiro mais à frente, assim que o actualizar).

Parti para a Índia faz algumas semanas para percorrer um sonho. Desde que me apaixonei pela fotografia que sempre desejei documentar diferentes culturas, tradições e costumes. Parti sozinho, para um pequeno grande Mundo desconhecido e comigo levei na bagagem uma grande expectativa. Estou aqui para receber o que o destino tiver para me dar, não planeei absolutamente nada, já vou em cerca de 3000km feitos por este sub-continente e os momentos têm surgido e acontecido.
Eu por aqui ando, receptivo e expectante. Viajarei de lugar em lugar e ficarei o tempo que achar necessário para conhecer e absorver cada um deles. Espero fazer um bom trabalho e espero conseguir dar-lhe o proveito e visibilidade merecida. Desejo colher muitos frutos e que isto apenas signifique um começo de algo que tomará proporções maiores e me levará a muitos outros lugares que me são desconhecidos.
Criei um blog, diário de viagem, com o tempo livre que vou tendo durante as viagens, vou escrevendo no meu caderninho e sempre que encontro internet, vou lá e publico. Coloco também fotografias e vídeos. Se quiserem acompanhar, e gostaria que o fizessem, www.hugolima.com
Logo no início do site está o link para o blog.

Desejo-vos boa sorte, desejem-me a mim também, sorte para este pequeno sonho que começa a ganhar vida.

“…o homem sonha, a obra nasce.”

Namaste!

Hugo Lima